A verticalização urbana e o papel da comunicação e da dialogia nas microssociedades condominiais

Por Alessandra Leles Rocha

 

Um dos grandes desafios da contemporaneidade é a comunicação. Nunca tivemos tantas ferramentas para nos conectar, mas a sobrecarga de informações, a superficialidade das interações digitais e os ruídos nos algoritmos tornam a conexão real um desafio diário.

Primeiro, porque ouvir para compreender, não apenas para responder, perdeu o seu significado. Segundo, porque há uma flagrante dificuldade em se expressar com clareza e sem julgamentos, focando em sentimentos e necessidades. Por fim, porque o ser humano desaprendeu a saber filtrar informações confiáveis em meio ao grande volume de dados.

E em meio a esse movimento, quase caótico, a verticalização urbana se apresenta extremamente desafiadora em relação à comunicação contemporânea, alterando a forma como o ser humano interage, criando bolhas sociais e gerando, por vezes, barreiras para uma convivência coletiva.

Alguns aspectos explicam esse fenômeno. Por incrível que pareça, a busca por segurança e lazer privado tem afastado os moradores do convívio com a diversidade da rua, transformando vizinhos em pessoas desconhecidas e restringindo o diálogo. Sem contar que a ausência de áreas de vivência no entorno dos edifícios, somada à saturação de serviços, prejudica a formação de redes de apoio e o sentimento de pertencimento ao bairro.

Eis, então, que surge o chamado individualismo estrutural, no qual a vida em prédios altos, onde o contato casual é limitado, exige negociações constantes de regras e limites, muitas vezes mediadas por regimentos internos frios ou aplicativos, em vez do diálogo direto.

Assim, as microssociedades condominiais passam a desenvolver um padrão comunicativo e dialógico muito mais frágil e limitado, que superficializa e prejudica a importância da linguagem para a coesão social.

De repente, a comunicação se torna fria e funcional, na medida em que a linguagem passa a ser usada com restrição para resolver problemas operacionais, tais como barulhos, taxas, regras, eliminando o diálogo empático e a construção de laços de ambiente. E sem uma comunicação dialógica aberta, simples avisos e notificações se tornam frequentemente interpretados como ataques pessoais, gerando atritos desnecessários.

Provando como tem havido um esvaziamento coletivo a partir da perda da coesão social, fazendo com que os moradores percam o sentimento de pertencimento. A tal ponto que isso se reflete na baixa adesão às assembleias e na apatia em relação ao bem-estar coletivo.

Acontece que não é pelo fato da expansão e do recrudescimento da verticalização urbana que o ser humano, de uma hora para outra, possa pensar que a comunicação social deixou de ser uma ferramenta fundamental para a sua convivência e coexistência, porque isso não é verdade. A comunicação social continua sendo o pilar da nossa existência coletiva.

Embora o isolamento físico possa parecer maior diante da verticalização urbana, a necessidade humana inata de se comunicar é o que permite a sobrevivência adaptativa dos indivíduos às diversas realidades socioculturais que se apresentam.

Em locais onde o adensamento populacional se amplia e se reafirma, a comunicação é o caminho para viabilizar novas pontes e espaços de convivência, possibilitando a recriação de redes de apoio que ajudam a aproximar as pessoas.

Não é sem razão que a arquitetura e o urbanismo contemporâneos vêm promovendo a interação social ao focar na co-criação comunitária e na abertura de espaços. Isso significa que, ao contrário de edifícios isolados, o design prioriza ambientes híbridos que misturam moradia, trabalho e lazer, derrubando barreiras e estimulando o encontro através da arquitetura participativa. O que permite transformar áreas de passagem em locais de permanência e diálogo.

Nesse sentido, certas estruturas como praças internas, passarelas abertas e terraços conectam os usuários visualmente e fisicamente, encorajando os encontros casuais; bem como, projetos integrados ao nível da rua tendem a convidar os pedestres para o interior do edifício, misturando público e privado para promover maior coesão e vitalidade urbana.

Assim, o impacto das conexões humanas na adaptação social e na redução do isolamento desencadeado pela verticalização urbana consegue vencer certas tensões e resistências decorrentes do individualismo, do narcisismo e do egoísmo contemporâneo.

Afinal, iniciativas que resgatam a identidade comunitária a partir da dialogia desperta pelos espaços de convivência incentivam o senso de pertencimento, reduzindo a sensação de anonimato que os grandes edifícios podem causar. Bem como, criam laços de confiança e entreajuda entre os vizinhos combatendo a solidão urbana, um fator crítico para a saúde mental.

Tudo isso, então, permite que as trocas intergeracionais e culturais fomentem a socialização em áreas comuns promovendo a humanização do ambiente e diminuindo as barreiras impostas pelo modelo comportamental padrão da contemporaneidade.

Daí a importância do papel do (a) sindico (a) ou da administradora condominial para romper com o isolamento dentro das microssociedades condominiais, criando espaços de empatia, escuta ativa e acolhimento.

A partir dessa integração o trabalho dessas pessoas transforma ambientes frios em comunidades vibrantes, onde vivências distintas se complementam, fortalecendo a rede de apoio social e a identidade coletiva. 

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