Verticalização urbana. Microssociedades condominiais. Consumo energético.
Por
Alessandra Leles Rocha
Com todo o burburinho a
respeito do fenômeno El Niño, cujas projeções climáticas indicam 96% de chance dele
se manter ativo no final de 2026 e início de 2027, o que eleva a probabilidade
de ondas de calor extremo, secas prolongadas e chuvas severas em diferentes
regiões do Brasil e do mundo, o assunto desse texto se torna de suma
importância.
Por quê? Bem, por várias
razões. Viver sob a batuta da contemporaneidade implica necessariamente estar
imerso em uma sociedade de consumo, inclusive, de energia. A sociedade contemporânea intensificou a
demanda energética ao promover a obsolescência programada, a digitalização
massiva e a hiperprodução.
É, poucas pessoas se dão
conta de como a fabricação, o transporte, o uso e o descarte de bens materiais consome
quantidades enormes de energia, dado o velho e já conhecido modelo linear de extrair,
produzir e descartar, o qual maximiza o desperdício energético em toda a cadeia
produtiva.
Além disso, o avanço
tecnológico, a computação em nuvem e a expansão de Data Centers voltados para a
Inteligência Artificial (IA) contribuíram para um aumento drástico na demanda
por eletricidade. O que somado as alterações climáticas e o estilo de vida
urbano aumentam o uso contínuo de sistemas de climatização e refrigeração,
elevando as cargas elétricas, especialmente nos horários de pico.
Você pode não perceber; mas,
o uso ininterrupto de smartphones, dispositivos IoT e aparelhos em modo de
espera, o chamado “stand-by”, mantém uma base de consumo fantasma
constante nas residências. O que significa que a energia se dissipa sem você
ver.
Nesse sentido, então, o estilo
de vida causa sobrecarga das matrizes energéticas, não só elevando as emissões
de gases de efeito estufa, como aprofundando as desigualdades socioeconômicas
através da pobreza energética.
O que significa a falta de
acesso a serviços energéticos modernos, seguros e confiáveis, ou incapacidade
financeira de arcar com os custos dessa energia para atender às necessidades
básicas de um domicílio.
Infelizmente, em pleno
século XXI, há populações que vivem isoladas e não contam com redes elétricas
ou infraestrutura de distribuição. Há famílias que possuem o serviço
disponível, mas precisam comprometer uma parte excessiva da renda para pagar as
contas desse serviço.
Diante de tudo isso,
torna-se impossível não traçar uma correlação entre a expansão desenfreada da
verticalização urbana, configurando as microssociedades condominiais, e os
impactos do consumo energético nessa nova realidade.
Afinal, o adensamento
populacional altera profundamente uma antiga dinâmica social e de
infraestrutura das cidades, a partir de uma transformação direta quanto ao
aumento e a concentração do consumo energético, criando microssociedades
altamente dependentes de recursos centralizados.
Assim, a verticalização
urbana carrega em si mesma o peso de contribuir diretamente para o efeito ilha
de calor. Sim, a concentração de concreto e vidro presente na arquitetura das
inúmeras microssociedades condominiais impede a circulação natural do vento e
retém calor, criando microclimas locais que retroalimentam a necessidade de
refrigeração artificial.
Razão pela qual, se o
entorno das áreas verticalização acontece essa desconstrução das
características climáticas, há um impulso para que as demandas estruturais e
climatológicas se destaquem no interior das microssociedades, que passam a
exigir sistemas intensivos de ar-condicionado central e ventilação mecânica
para manter o conforto térmico.
Também, a infraestrutura de
transporte vertical, que está relacionada ao uso contínuo de elevadores de alta
velocidade, bombas de recalque de água para suprir os andares mais altos, e os sistemas
de pressurização de escadas, que geram picos diários de consumo de energia
elétrica.
Sem contar, as áreas comuns
e de lazer, que representam a oferta de extensas áreas de convivência, tais
como academias, spas, piscinas aquecidas, coworking, que exigem operação
constante e iluminação ostensiva, elevando dramaticamente a pegada energética das
microssociedades condominiais.
E nessa perspectiva interna
das microssociedades condominiais, muitos gestores têm se preocupado em
promover a implementação em larga escala de medidas sustentáveis, tais como a
instalação de painéis solares fotovoltaicos, sistemas de reutilização de água e
iluminação em LED com sensores de presença.
Mas, será que só isso é
suficiente para evitar os picos de energia e eventuais apagões elétricos? Porque,
de fora dos muros das microssociedades condominiais, a verticalização urbana
tem se mostrado desamparada de uma infraestrutura energética compatível às suas
novas demandas sociais.
Com picos de energia
frequentes, oscilações de tensão que danificam equipamentos e a necessidade de
custos extras em condomínios para modernizar transformadores e instalar
geradores de emergência, nada disso parece algo supérfluo, concorda?!
Dada a diversidade e a
pluralidade de pessoas vivendo a realidade desse adensamento populacional, as
demandas energéticas, por exemplo, os serviços de Home Care, não podem
sofrer interrupções.
Portanto, a interrupção de
energia em condomínios deixou de ser um mero inconveniente, tornando-se uma
questão de segurança e saúde pública.
Nesse sentido, o papel do
(a) síndico (a) ou da administradora condominial precisa ser ativo. Orientar
para que seja efetuado o cadastro dos pacientes dependentes de certos equipamentos
junto à concessionária de energia, pode garantir a prioridade no
restabelecimento do serviço e o aviso prévio em casos de manutenção programada.
Verificar se a apólice do
edifício inclui cobertura para danos elétricos em áreas comuns, o que ajuda a
mitigar os custos com reparos. O que implica também em manter a manutenção elétrica
preventiva.
Pois é por meio dessa
vigilância que se garante a segurança contra incêndios, dano estrutural e a
continuidade de serviços essenciais, ou seja, os dispositivos eletrônicos, os interfones,
as bombas de água e a iluminação de emergência, por exemplo.
Esse tipo de manutenção não
só identifica desgastes precocemente, evitando gastos exorbitantes com reparos
emergenciais ou a substituição total de equipamentos, como permite a eficiência
energética, evitando o superaquecimento de fios e fugas de corrente, o que
reduz o desperdício e reflete na conta de luz do condomínio.
É importante destacar que a
manutenção elétrica preventiva em microssociedades condominiais exige
obrigatoriamente um profissional legalmente habilitado e com registro no
conselho de classe, CREA ou CFT.
Todas as obras e
intervenções em redes de energia não podem ser conduzidas por amadores, sob
risco de acidentes e invalidação de seguros. Por isso, como os condomínios
estão sujeitos à legislação civil, o (a) síndico (a) ou a administradora
condominial responde cível e criminalmente por acidentes ou incêndios causados
por instalações precárias.
Ao final da manutenção, o
profissional deverá emitir o documento de responsabilidade técnica fornecido, ART
para Engenheiros ou TRT para Técnicos. O que significa que todo o trabalho
ocorreu sob as normas técnicas da ABNT NBR 5410 e 5674, e NR 10 do Ministério
do Trabalho.
