Verticalização urbana e a dinâmica dos resíduos sólidos nas microssociedades condominiais
Por
Alessandra Leles Rocha
Até a Revolução Industrial,
na segunda metade do século XVIII, os resíduos eram quase exclusivamente
orgânicos, tais como restos de alimentos, cinzas, detritos. De modo que eles eram
facilmente absorvidos pela natureza e, eventualmente, em razão do acúmulo em
determinados locais, potencializavam epidemias.
Acontece que os resíduos de
natureza orgânica têm capacidade de atrair certos animais e insetos, causadores
de doenças, algumas delas graves ou até letais.
E a razão disso é simples: as
três condições ideais para a sua sobrevivência e reprodução: água,
proveniente de poças ou recipientes descartados; abrigo, em entulhos ou
espaços escuros; e, alimentos, oriundos dos próprios resíduos orgânicos
expostos.
Daí a necessidade de
implementar ações básicas como acondicionar o lixo em sacos resistentes, manter
lixeiras tampadas, remover focos de água parados e realizar a limpeza regular
de quintais a fim de impedir a fixação e a atenção dessas espécies.
Mas, a partir da Revolução
Industrial, o mundo passou a coexistir com diversos outros tipos de resíduos,
os inorgânicos e sintéticos. O consumo em massa e os processos de fabricação
passaram a gerar entulhos complexos, divididos principalmente em resíduos
industriais, compostos por solventes, plásticos, metais, tecidos, e os resíduos
urbanos, decorrentes das embalagens e bens de vida útil curta.
A grande questão em relação
a essa mudança na composição dos resíduos diz respeito à presença de metais
pesados na sua composição. A presença de chumbo, mercúrio, cádmio, níquel e cromo, por exemplo, é uma das mais graves ameaças ambientais e de saúde pública
da atualidade.
Porque o lixo depositado em
lixões ou aterros inadequados é lavado pela força das chuvas, fazendo com que os
metais se infiltrem pelo solo, atingindo e poluindo aquíferos e corpos d'água
superficiais.
Desse modo, a ingestão de
água ou alimentos contaminados provoca um processo de bioacumulação no
organismo humano. O que significa que a exposição crônica a esses elementos químicos
está associada a danos neurológicos severos, problemas renais, infecções,
distúrbios de desenvolvimento em crianças e diversos tipos de câncer.
Mas, o que tudo isso tem a
ver com a verticalização urbana e as microssociedades condominiais? Tudo. O
adensamento populacional em determinadas áreas das cidades não só impacta o
volume de resíduos produzidos como o modo com o qual eles são geridos pelos
responsáveis.
Cenários de alta densidade
urbana exigem adaptações na gestão de resíduos, tais como uma frequência maior
de recolhimento, principalmente em áreas verticais, com edifícios residenciais
e comerciais, para evitar o acúmulo nas calçadas.
A construção de Pontos de
Entrega Voluntária (PEVs), especialmente, em bairros de alta densidade onde o
tráfego de caminhões especiais é restrito. Trata-se de locais onde é possível descartar
gratuitamente os resíduos recicláveis, eletrônicos e materiais que não devem ir
para o lixo comum, a fim de facilitar a reciclagem e evitar o descarte
irregular com potencial risco de contaminação no meio ambiente.
Aliás, nesse contexto, o apoio
às associações de catadores também contribui para o rastreamento e inserção dos
recicláveis na economia circular, reduzindo o volume
enviado aos aterros.
Esse apoio se dá a partir de
campanhas de conscientização sobre o acondicionamento correto, para evitar o
risco dos vetores de doenças e os maus odores em locais com grande proximidade
entre vizinhos.
Viu só?! A verticalização
urbana e as microssociedades condominiais têm uma responsabilidade social
gigantesca em suas mãos, na medida em que podem consolidar uma consciência em
relação aos 7Rs.
Quando aplicados em espaços de
elevado adensamento populacional, eles ganham escala real, ampliando a pegada
ecológica das cidades. Práticas de consumo e descarte consciente operam em
benefício do meio coletivo quando articuladas em torno do repensar, recusar,
reduzir, reutilizar, reciclar, reparar e reintegrar.
As microssociedades
condominiais podem e devem estimular a avaliação consciente sobre o consumo
coletivo e individual, questionando se as necessidades de produtos e serviços
são reais. Algo que impacta diretamente na redução do desperdício de recursos
específicos, como água e energia nas áreas comuns.
Podem dar um novo propósito
a objetos que iriam para o lixo, evitando o descarte precoce. Por exemplo,
transformando restos de alimentos, tais como as cascas de frutas, vegetais,
borra de café e podas de jardim em adubo natural, sendo, portanto, uma forma de
devolver matéria orgânica à natureza.
Assim, as microssociedades condominiais
podem implementar processos de compostagem e criar hortas comunitárias
orgânicas, transformando os resíduos provenientes deles em aditivos
orgânicos.
Além disso, deve-se olhar
com atenção para o papel das Organizações Não Governamentais (ONGs) e empresas ligadas
aos resíduos recicláveis para que haja uma destinação correta desses elementos.
Em certas cidades, por
exemplo, os condomínios podem estruturar uma coleta seletiva de papel,
plástico, vidro e metal, contando com cooperativas parceiras para encaminhar os
materiais.
Vale ressaltar que a coleta
seletiva não apenas gera benefícios indiretos, tais como a redução de custos
com sacos de lixo e otimização da mão de obra; mas, também, em diversas
cidades, têm nessas práticas sustentáveis a
possibilidade de obtenção de descontos no IPTU, por meio de programas de
certificação
ambiental.
Por fim, a ideia de consertar
itens e equipamentos dos edifícios, ao invés de substituí-los imediatamente, não
só é uma estratégia ambientalmente correta, como contribui diretamente para a
economia orçamentária desses locais.
Como é possível compreender,
a relação entre a verticalização urbana e a dinâmica dos resíduos sólidos nas
microssociedades condominiais é praticamente simbiótica.
Se por um lado, a alta
densidade populacional desses edifícios exige logística eficiente para evitar a
sobrecarga urbana, por outro, a organização das microssociedades condominiais
viabiliza a coleta seletiva em larga escala, promovendo a economia circular,
valorizando o espaço urbano e tornando-o mais limpo e saudável.
