VERTICALIZAÇÃO. MICROSSOCIEDADES CONDOMINIAIS. DESAFIOS SOCIAIS.
VERTICALIZAÇÃO.
MICROSSOCIEDADES CONDOMINIAIS. DESAFIOS SOCIAIS.
Por
Alessandra Leles Rocha
A verticalização urbana na
medida em que forma as microssociedades condominiais inevitavelmente passa a
expressar uma série de desafios. Afinal, esse modelo de organização
socioespacial intensifica o adensamento, exigindo uma gestão complexa em razão
das tensões, desgastes e sobrecarga na infraestrutura interna e externa.
Desse modo, o primeiro
aspecto a se destacar é a governança e a convivência. Como qualquer espaço
social, as microssociedades condominiais precisam de regras claras e capazes de
atender a diversidade e a pluralidade de seus habitantes. São elas que permitem
não só harmonizar a convivência como, também, garantir que os direitos de um
morador não interfiram nos direitos dos outros.
E que regras são essas? A
mais importante está descrita na Convenção de Condomínio, cuja aprovação exige
2/3 dos proprietários e trata de regras estruturais, taxa de despesas, fundos e
frações ideais. Depois, vem o Regimento Interno, cujo papel é lidar com as
questões cotidianas, ou seja, estabelecer as diretrizes práticas de
convivência, tais como uso de áreas de lazer, horários de silêncio, regras para
animais de estimação, garagem, ...
Para ser aprovado, o
Regimento Interno exige maioria simples, o que significa 50% mais 1 dos condôminos
presentes na assembleia. No entanto, vale destacar que a votação deverá ocorrer
em uma assembleia geral especificamente convocada para esse fim, e a decisão
precisa ser registrada em ata. Além disso, somente condôminos adimplentes podem
votar.
Em segundo lugar vem a
privatização do lazer. Nas microssociedades condominiais os espaços intramuros
referentes ao lazer e a convivência coletiva são cada vez mais comuns e,
portanto, mais passíveis de tensões e conflitos que precisam ser bem
administrados pelos gestores do local, no sentido de atuar como mediador,
focando em regras claras, transparência e no bem-estar coletivo.
Nesse contexto, é
fundamental que os parâmetros sejam definidos com transparência em relação aos horários,
a capacidade máxima de pessoas, a finalidade de uso do solicitado, a presença
de visitantes externos, enfim... Todas essas
diretrizes devem ser de fácil acesso, inclusive, permitindo que sejam
utilizadas plataformas digitais ou livros de registro para organizar o uso de
espaços geralmente mais disputados, tais como churrasqueiras e salões de
festas.
A gestão condominial deve
estar atenta e garantir que os espaços estejam sempre limpos e seguros, pois
ambientes mal conservados são fontes frequentes de insatisfação e conflitos. Algo
que vai exigir de todos um diálogo amigável e empático antes de aplicar
advertências formais ou multas.
Contudo, não basta olhar
apenas para o cenário interno dessas microssociedades. O processo de
verticalização urbana exige de todos os cidadãos residentes em uma determinada
área geográfica uma atenção especial ao seu entorno.
Começando pelo conceito de
gentrificação. A construção de prédios de alto padrão eleva o custo de vida e
do solo local, podendo expulsar moradores tradicionais de baixa renda e
acentuar a disparidade urbana.
Portanto, esse movimento é o
motor da segregação socioespacial, que desloca as populações para as periferias
e aprofunda o abismo no acesso à infraestrutura, cultura e oportunidades.
Como o custo de vida, os
aluguéis e os impostos disparam nessas áreas, os moradores tradicionais, sem condições
de arcar com os novos custos, são obrigados a vender ou abandonar suas casas.
Esse processo de segregação
não afeta apenas a economia, mas a dimensão antropológica e afetiva da cidade. Haja
vista que comércios tradicionais, dinâmicas de ambiente e costumes locais são
substituídos por redes de franquias e espaços padronizados.
De modo que, lenta e
gradualmente, as lembranças, as histórias familiares e os laços de
solidariedade construídos ao longo de gerações perdem seu espaço físico,
gerando um sentimento de desenraizamento e perda de pertencimento nos moradores
tradicionais.
E não para por aí. O aumento
repentino de densidade populacional em uma mesma rua afeta a infraestrutura do
entorno, ou seja, o trânsito, a coleta de lixo, a rede esgoto e elétrica, e
tudo isso irá exigir estudos de impacto de ambiente para mitigar os transtornos,
que nem sempre são realizados de maneira adequada.
Especialmente, em cidades de
grande e médio porte brasileiras, não é incomum se deparar com a concentração
enorme de veículos, gerando congestionamentos e falta de vagas de
estacionamento.
Problemas em relação ao
volume de esgotos, que pode superar a capacidade de vazão da rede, causando
rompimentos, refluxos e contaminação.
Casos em que a demanda por
energia; sobretudo, em horários de pico, causa apagões em razão da
insuficiência e ineficiência dos transformadores e do sistema de fiações, os
quais deveriam ter maior capacidade.
A maior geração de lixo
exige alteração na frequência de recolhimento e pode resultar em acúmulo de
lixo nas calçadas. Em regiões de maior densidade populacional é necessário um
planejamento que inclua o acondicionamento adequado dos resíduos, a publicidade
em relação aos dias e horários estipulados para a coleta e, eventualmente, a
solicitação de alterações de frequência ao poder público.
Por fim, à luz dos impactos
extremos do clima, a questão da drenagem urbana é de suma importância. A
substituição de áreas permeáveis por
concreto impermeabiliza o solo, aumentando o risco de alagamentos. Esse
processo intensifica a dificuldade de escoamento superficial rápido,
sobrecarregando o sistema de drenagem e elevando significativamente os riscos
de enchentes, alagamentos e erosões, para a população.
Sem contar que, os edifícios
muito altos alteram o regime de ventos e formam ilhas de calor, retendo a
radiação solar e aumentando a temperatura das cidades, ou podem bloquear a luz
solar e a circulação de ar natural das moradias vizinhas mais baixas,
tornando-as insalubres e inabitáveis.
Em razão desses apontamentos
é que se faz importante analisar a questão da verticalização urbana com mais
critério e seriedade, pois ela implica necessariamente em responsabilidade,
ética e consciência social. O que
significa que ela é uma questão de justiça socioespacial.
Quando dissociada da função social da propriedade e do bem-estar coletivo, essa expansão pode aprofundar desigualdades, sobrecarregar o meio ambiente e segregar o espaço urbano. Daí a razão de se discutir sobre os limites de altura das edificações e condomínios e suas taxas de ocupação, de maneira democrática por meio da revisão contínua do Plano Diretor Municipal, exigindo transparência e consultas públicas frequentes.
