Verticalização urbana. Microssociedades condominiais. Como esses novos espaços sociodemográficos podem potencializar a responsabilidade social.
Por Alessandra
Leles Rocha
Olhando para a franca
expansão da verticalização urbana e a formação das microssociedades
condominiais, é inevitável perceber como esses espaços sociodemográficos podem
potencializar o exercício da responsabilidade social, dentro de diferentes formas.
Aos que ainda não conhecem
ou compreendem, a responsabilidade
social significa o compromisso ético e voluntário de indivíduos e organizações
em promover o bem-estar da sociedade e do meio ambiente. Portanto, o objetivo
central é garantir que as decisões e atividades tomadas gerem um equilíbrio
positivo para o planeta e para a população.
Como as microssociedades
condominiais são um recorte da própria sociedade em si, é inevitável que a
responsabilidade social possa fazer parte da paleta de práxis dos seus
habitantes. Afinal, quando os (as) moradores (as) se conscientizam de que a
gestão do espaço compartilhado impacta a comunidade e o meio ambiente, a
responsabilidade social deixa de ser um conceito abstrato e vira prática
diária.
Em geral, é comum que o ponto
de partida se dê pela sustentabilidade
e meio ambiente. Pequenas ações coletivas geram grandes impactos na
redução de recursos e na pegada de carbono como, por exemplo, parcerias com
cooperativas de reciclagem locais para o descarte correto de materiais, instalação
de sensores de presença, lâmpadas LED e sistemas de aproveitamento de água da
chuva e pontos de coleta para óleo de cozinha usado, pilhas, baterias e lixo
eletrônico, evitando a contaminação do solo.
Depois, o que aparece de
maneira perceptível e importante é a responsabilidade social aplicada ao tratamento humano e à
igualdade de oportunidades. De que forma? Pela adaptação de áreas
comuns com rampas, elevadores adequados, piso tátil, para idosos, gestantes e
pessoas com mobilidade reduzida.
Pelo respeito à diversidade,
a partir da promoção de um ambiente de tolerância, combatendo o preconceito e o
barulho excessivo.
Pela valorização dos funcionários
que atuam no condomínio, garantindo direitos trabalhistas e promovendo um
ambiente de trabalho seguro e respeitoso.
Mas, não é só isso. Uma microssociedade condominial socialmente
responsável não se fecha em si mesma, ela também interage com o seu entorno ou
cidade. Nesse contexto, as possibilidades são muitas.
Seja pela organização de campanhas sazonais de agasalho, brinquedos,
material escolar e alimentos não perecíveis para instituições de caridade
locais.
Pelo estímulo à troca ou à doação de itens entre os próprios moradores,
tais como roupas, móveis e livros, promovendo o consumo consciente.
Pela conexão do condomínio a um abrigo de idosos, orfanato ou hospital
local para ações regulares ou voluntárias.
Pelo cultivo de temperos e de hortaliças em áreas inutilizadas do espaço
condominial, a fim de promover uma alimentação saudável a
partir do consumo de alimentos frescos.
Pela promoção de palestras e/ou workshops sobre prevenção de acidentes
domésticos e primeiros socorros, principalmente sobre quedas,
engasgos e queimaduras; segurança
condominial e cibernética, com orientações sobre controle de acesso,
prevenção a golpes virtuais e conscientização de porteiros (as) e moradores
(as); prevenção e
combate a incêndios; gestão de conflitos e boa convivência; bem-estar, saúde mental e
ergonomia, com dicas sobre saúde física, controle do estresse e como
adaptar o espaço de moradia em home office; posse e cuidado responsável de animais de estimação;
oficinas de reciclagem
e compostagem; uso
consciente de água e energia; finanças pessoais e economia doméstica; gastronomia e culinária,
com workshops rápidos sobre preparação
de bebidas, churrasco, massas ou confeitaria, utilizando o espaço do salão de
festas ou espaços gourmet; jardinagem básica, com lições de como cuidar de hortas
verticais, plantas de apartamento e paisagismo; e/ou, oficinas infantis,
trazendo atividades de pintura, contação de histórias ou robótica para entreter
as crianças nos finais de semana ou férias escolares.
O que torna possível afirmar que a responsabilidade social em
condomínios altera profundamente a dinâmica de convivência, melhorando o
isolamento e o individualismo pelo senso de pertencimento e comunidade. Esse
exercício transforma a gestão do espaço compartilhado melhorando significativamente
a qualidade de vida de todos os envolvidos.
De repente, as mudanças
começam a emergir pelo comportamento dos moradores que passam a considerar o
impacto de suas ações diárias, tais como barulho, descarte de lixo e uso das
áreas comuns, no bem-estar dos vizinhos. Algo que constrói a educação pelo
exemplo; visto que, as ações conjuntas incentivam hábitos mais saudáveis e cívicos, como a separação correta de recicláveis e a
economia de água
e energia.
Concomitantemente, se verifica
a transformação das ideias. Aqui, ali e acolá, a cultura de sustentabilidade
ganhas espaços. Ideias inovadoras começam
a se destacar, como organização de campanhas sazonais ou os pontos de coleta
para óleo de cozinha usado, pilhas, baterias e lixo eletrônico.
O que acaba por repercutir diretamente
na transformação nas relações. Seja pela redução de conflitos, tendo em vista
que o diálogo aberto e a empatia substituem as notificações formais e as
desgastantes brigas judiciais, facilitando a resolução de impasses de forma
amigável. Seja pela possibilidade de criar redes de apoio e segurança.
A própria administração condominial
passa a exercer uma gestão inovadora, a partir da compreensão e do desejo de concretizar
um projeto de desenvolvimento social e valorização patrimonial. Aliás, esse
ponto também reflete de maneira significativa como estratégia financeira eficaz
que impacta a redução de despesas condominiais.
Como? Na economia nas contas
de consumo, ou seja, água, energia, telefone, internet. Na gestão eficiente de
resíduos. Na educação, conscientização e preservação das áreas comuns. Na manutenção
preventiva. No uso compartilhado e na economia circular 1.
É dentro desse contexto, então, que a responsabilidade social em microssociedades condominiais permite a existência de espaços autossustentáveis, gerando economia financeira, redução de resíduos e, principalmente, fortalecendo o senso de comunidade. Ao adotar esses modelos, os moradores otimizam recursos, promovem o bem-estar coletivo e alinham a gestão condominial às práticas ESG (Ambiental, Social e Governança) 2.
1 O
compartilhamento aproveita a proximidade física para melhorar bens com alta
ociosidade, trazendo benefícios diversos. Já a economia circular prioriza a
redução, a reutilização, o reparo e a reciclagem, transformando resíduos em
novos recursos e regenerando os ecossistemas naturais.
2 ESG é uma sigla em inglês para Environmental, Social and Governance (Ambiental, Social e Governança), que representa um conjunto de critérios e práticas corporativas usados por empresas e investidores para avaliar se um negócio é sustentável, ético e responsável, para além da busca exclusiva por lucros.
