Verticalização urbana. Microssociedades condominiais. O papel do Letramento Condominial para a gestão e as relações humanas.

Por Alessandra Leles Rocha

 

Durante muito tempo, um dos aspectos mais básicos do desenvolvimento intelectual cognitivo humano era a alfabetização. Essa capacidade de ler, interpretar e escrever foi um divisor de águas que permitiu à humanidade externalizar o conhecimento, preservar a memória e transmitir ideias complexas através das gerações.

Desse modo ela remodelou o cérebro humano, criando novas conexões neurais associadas à linguagem e ao pensamento abstrato. Acontece que em algum momento da história viu-se que somente ela era insuficiente para atender todas as demandas sociorrelacionais da humanidade.  

Então, a partir da década de 1950, impulsionados por organizações internacionais como a Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (UNESCO), que buscavam medir e combater o analfabetismo funcional1, cientistas e pesquisadores criaram o conceito de literacy (letramento 2), o qual representa o estado ou a condição de quem sabe fazer o uso eficaz e competente da leitura e da escrita no dia a dia.

Diante disso, novas demandas se impuseram ao letramento a fim de que o indivíduo pudesse se adaptar às diversas áreas do conhecimento, contextos sociais e/ou novas tecnologias.

Assim, surgiu o letramento digital, que representa a capacidade de interagir com tecnologias, usar dispositivos, navegar na internet e compreender o ambiente virtual.

O letramento midiático, essencial na era da informação; pois, permite avaliar criticamente fontes de mídia, identificar notícias falsas e evitar a desinformação.

O letramento científico que envolve compreender e utilizar o conhecimento científico para interpretar o mundo, questionar informações e tomar decisões consciente.

Os multiletramentos que envolvem múltiplas linguagens visuais, sonoras e espaciais, exigindo que o indivíduo consiga ler além do texto escrito convencional.

E aquele que é o objeto de reflexão desse texto, ou seja, o LETRAMENTO CONDOMINIAL, que diz respeito ao processo de conscientização, educação e orientação de moradores, síndicos e funcionários sobre as regras, os direitos, os deveres e as dinâmicas da vida em uma microssociedade condominial.

Seu objetivo principal é promover uma convivência harmoniosa, prevenir conflitos e garantir uma gestão transparente e segura. Nesse contexto, ele se compõe de três eixos fundamentais: LETRAMENTO LEGAL E NORMATIVO, LETRAMENTO DIGITAL E FINANCEIRO, e o LETRAMENTO SOCIAL E DE CONVIVÊNCIA.

O Letramento Legal e Normativo foca em transformar documentos jurídicos e técnicos complexos em uma linguagem acessível e prática, garantindo que todos que compõem à microssociedade condominial compreendam seus direitos e deveres.

Esse conhecimento é construído a partir da legislação federal, principalmente o Código Civil Brasileiro (Artigos 1.331 a 1.358) e a Lei do Condomínio nº 4.591/1964; a Convenção de Condomínio; o Regimento Interno; e, as normas técnicas, tais como a ABNT NBR 16280, que regulamenta reformas em unidades e áreas comuns.

A sua importância está, portanto, na redução de conflitos, com clareza de direitos, contratos transparentes e regras de convivência; na prevenção de multas, em razão da conformidade ambiental, da regularização edilícia e do comprometimento com as normas técnicas; e, na segurança jurídica e na valorização do imóvel, a partir da proteção patrimonial, da mitigação de riscos, da estabilidade contratual, da liquidez de mercado, do aproveitamento de potencial e por estar livre de ônus.

O Letramento Digital e Financeiro representa a capacidade de síndicos (as), administradores (as) e moradores (as) utilizarem ferramentas tecnológicas e compreenderem a dinâmica das finanças do edifício. O que significa a união da habilidade tecnológica com a educação financeira aplicada à gestão condominial.

O letramento digital trata da capacidade de uso de aplicativos e plataformas, a realização da prestação de contas via digital e a realização de assembleias virtuais, aumentando a participação dos moradores que antes não tinham tempo para comparecer fisicamente.

O letramento financeiro envolve a compreensão dos conceitos econômicos que impactam diretamente o bolso dos condôminos, ou seja, a capacidade de síndicos e conselheiros fiscais interpretarem saldos, demonstrativos de receitas e despesas; a compreensão da cota condominial a partir do entendimento de como o valor da taxa mensal é calculado, cobrindo custos fixos, contratos de manutenção e formação do fundo de reserva; e, construindo conhecimento para identificar cobranças indevidas, a fim de evitar fraudes financeiras digitais e manter a saúde financeira do condomínio.

A sua importância se dá pela transparência e confiança, na medida em que os (as) moradores (as) sabem exatamente onde o dinheiro está sendo investido, sem conflitos e desconfianças; pela economia operacional, considerando que a automação de processos, tais como emissão de boletos e gestão de pagamentos via pix, reduz custos com papelada e trabalho manual, gerando economia para o condomínio; e, pela agilidade nas decisões, considerando que os processos, antes lentos e demorados, passam a ser resolvidos em poucos cliques.

Por fim, o Letramento Social e de Convivência. Afinal, ele representa o processo contínuo de educação, conscientização e orientação dos moradores para garantir uma convivência harmoniosa em espaços compartilhados.

Tal conceito ultrapassa a ideia do cumprimento das regras, para desenvolver uma capacidade ativa em cada indivíduo para compreender seus direitos, assumir seus deveres e respeitar o espaço e a rotina do próximo.

Esse letramento, então, envolve a compreensão das normas, a consciência em relação à empatia e ao respeito, o incentivo à comunicação não violenta (CNV) - saber como resolver conflitos cotidianos através do diálogo e da mediação, evita que desentendimentos banais escalem para litígios jurídicos desgastantes - e à educação ao contrário da punição.

Assim, além de apenas dividir paredes, os moradores aprendem a compartilhar espaços, recursos e regras, o que evita o desgaste emocional e financeiro; bem como, a geração de conflitos constantes e, muitas vezes, desnecessários.

Mas, para se alcançar o letramento condominial é preciso adotar estratégias eficientes de comunicação. Começando pela diversificação de canais de comunicação institucional – aplicativos, portais, e-mail, murais físicos e digitais, assembleias. Isso permite transformar as regras mais comuns, por exemplo, em cartazes de boa convivência, infográficos ou até vídeos explicativos curtos.

Deve-se, também, enviar resumos e materiais de apoio com dias de antecedência para as assembleias, evitando que assuntos importantes tornem as discussões intermináveis. Quando os condôminos já chegam informados e preparados para tomar decisões, as assembleias se tornam mais rápidas e eficazes.

E quando houver uma infração ou problema recorrente, faça uso da comunicação para lembrar os (as) moradores (as) do motivo daquela regra existir, promovendo a empatia e o senso de coletividade, ao contrário de apenas aplicar multas.

Como se vê, diante do rápido adensamento populacional decorrente das microssociedades condominiais, o conceito de LETRAMENTO CONDOMINIAL tornou-se uma questão de sobrevivência urbana. Os habitantes desses locais precisam se apropriar não apenas de seus espaços; mas, principalmente, de todos os conhecimentos que lhe permitam conviver e coexistir dentro dos parâmetros de paz e civilidade fundamentais.



1 O analfabetismo funcional é a incapacidade de compreender, interpretar e utilizar informações de textos, gráficos e números em situações do cotidiano, mesmo tendo consciência de letras e palavras.

2 Letramento é a habilidade de compreender, interpretar e utilizar a leitura e a escrita nas diversas práticas sociais. Portanto, ele vai além do ato mecânico de decodificar palavras, para se tornar a capacidade de usar a linguagem escrita para se comunicar de forma crítica, resolver problemas e atuar ativamente na sociedade.

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