Verticalização urbana. As microssociedades condominiais e sua postura diante das imposições e desafios do Antropoceno.
Por Alessandra
Leles Rocha
O químico Paul Crutzen e o
ecólogo Eugene Stoermer cunharam o conceito do Antropoceno, que é a união das palavras gregas
antropos (humano) e kainos (novo), para propor o surgimento de
uma nova era geológica, na qual as ações humanas se tornaram a principal força
de mudança no planeta.
Isso significa que os impactos globais negativos dizem respeito às
mudanças profundas que ocorreram no clima, nos oceanos, na terra e na
biodiversidade e foram causadas diretamente pelo ser humano. Haja
vista os vestígios visíveis em rochas decorrentes do uso de plástico, da fuligem
de carvão e dos resíduos radioativos de testes nucleares.
Portanto, o que se tem bem
diante dos olhos é o fato de que o período anterior estável, denominado de Holoceno,
cedeu espaço a um tempo de instabilidade ambiental gerada pela espécie humana. Aí
voce deve estar se perguntando, qual a razão de relacionar essas ideias às
microssociedades condominiais?
Ora, como qualquer sociedade, as microssociedades condominiais estão
sim expostas aos impactos e efeitos do Antropoceno.
De que forma? Por meio de eventos climáticos extremos, altos custos de
manutenção e pressão nos recursos básicos.
Veja, são muitos os exemplos
de tempestades severas que provocam alagamentos em garagens, quedas de árvores
e danos estruturais em fachadas. Em outros casos, o calor extremo eleva o
consumo de energia com aparelhos de ar-condicionado em áreas comuns,
encarecendo a taxa condominial, ou com períodos de seca que geram o racionamento
de água, exigindo o uso de poços ou cisternas alternativas.
Situações que têm levado às seguradoras a aumentarem os valores das
apólices condominiais ou negarem a cobertura para áreas de risco urbano
reconhecidas. Algumas, inclusive, impondo exigências prévias, tais como o condicionamento
da acessibilidade do risco aos laudos de engenharia e obras de reforço ou
contenção.
Portanto, as diretrizes de
prevenção e contratação de seguros condominiais têm incluído a mitigação de danos, com
investimento em infraestrutura resiliente para diminuir a vulnerabilidade
predial; a análise
atuarial 1
que permite a inclusão de dados geográficos e climáticos refinados na
precificação; e, a conformidade
que é a adaptação às diretrizes dos órgãos do setor sobre resiliência
climática.
Então, como deve ser o olhar do (a) gestor (a) condominial contemporâneo
para o exercício da sua função diante da realidade do Antropoceno? Em linhas
gerais, ele (a) deve adotar um olhar sistêmico, estratégico e regenerativo,
superando uma visão puramente burocrática para transformar o condomínio em um
espaço de sustentabilidade.
Em primeiro lugar, essa visão contempla uma gestão de recursos baseada
na eficiência ecológica. O que inclui a economia circular, a
partir da implementação da coleta seletiva avançada, da compostagem de resíduos
orgânicos e da redução drástica do uso de plásticos; a eficiência energética e hídrica, com liberação do consumo
coletivo por meio de automação preditiva, coleta de água da chuva e instalação
de painéis solares; e, a mobilidade
urbana na perspectiva da adequação da infraestrutura predial para o
uso de veículos elétricos e o incentivo ao transporte ativo, ou seja, caminhar
ou andar de bicicleta.
Depois, lançado um olhar racional, responsável e técnico sobre a governança
e o Impacto Social (ESG). De que forma? Bem, exercendo uma visão
coletiva capaz de tratar o condomínio como uma microssociedade interconectada,
promovendo a saúde mental, o bem-estar e a cultura de cooperação entre os
moradores. Construindo relações de trabalho justas, o que significa garantir a
dignidade, a capacitação e a inclusão de colaboradores; bem como, a discussão colaborativa
a respeito dos serviços.
De modo que haja uma transparência
ativa, com prestação de contas de forma clara, permitindo que a coletividade se
eduque sobre as decisões ecológicas e financeiras.
Por fim, reafirmando uma consciência
quanto à adaptação e à resiliência urbana. Sim, porque é fundamental que esses novos
espaços sociodemográficos sejam capazes de resistir, absorver e se recuperar
rapidamente de choques climáticos e desastres, mantendo suas funções essenciais.
Basta olhar para a gestão de
riscos climáticos, que fala da preparação da edificação para eventos extremos,
como tempestades severas e ondas de calor, para pensar na relação direta que
existe entre esses pontos e a pluralidade e diversidade populacional nas
microssociedades condominiais.
Esse tipo de gestão exige
uma atenção especial a idosos, crianças e pessoas com mobilidade reduzida
durante eventos extremos do clima. Afinal, os (as) moradores (as) reagem de
formas diferentes a situações de estresse e emergência climática. Diante desse
cenário, os protocolos
de emergência devem contemplar as especificações físicas de diferentes faixas
etárias.
Além disso, quando se trata
da adaptação e da resiliência urbana, é muito importante pensar na infraestrutura verde,
que engloba o uso de elementos naturais e urbanísticos em edifícios e áreas
comuns para melhorar o clima, economizar energia e aumentar o bem-estar.
Dentre esses elementos estão
os telhados verdes,
que cobrem as lajes dos edifícios com plantas para reter água da chuva e
diminuir o calor interno; os
jardins verticais, em que se colocam plantas nas paredes de entrada
ou garagens, economizando espaço no solo; as hortas e pomares que criam espaços úteis de
cultivo de alimentos para uso dos moradores; e, os pisos permeáveis que evitam poças e
ajudam a escoar a água da chuva direto para a terra.
Vale ressaltar que, no caso
da implementação da infraestrutura verde em microssociedades condominiais, o
planejamento precisa ocorrer com suporte técnico-cientifico de especialistas,
obedecendo a legislação e garantindo segurança jurídica, a partir da emissão
das Anotações de Responsabilidade Técnica (ARTs) pelos responsáveis contratados.
Profissionais como
engenheiros agrônomos, florestais ou arquitetos/paisagistas devem desenhar o
projeto, o qual precisa atender as exigências de leis municipais, estaduais e
federais, além da convenção condominial.
No que diz respeito à infraestrutura verde e gestão de riscos
climáticos, o que se pretende é consolidar benefícios práticos, tais como conforto
térmico, deixando os edifícios mais frescos e gastando menos energia com
ar-condicionado; promovendo a valorização imobiliária; e, contribuindo
diretamente à saúde, ao reduzir o estresse com a criação de áreas de descanso e
lazer para as famílias.
Contudo, há um aspecto fundamental para o
(a) gestor (a) condominial que é o estabelecimento de parcerias com as
instituições que fazem a gestão das cidades, quando o assunto se refere aos
impactos e efeitos do Antropoceno. Essa cooperação alinha os condomínios aos
planos diretores 2
e redes de resiliência climática locais.
Desse modo, esses pontos de
apoio e cooperação incluem a Defesa Civil e os órgãos ambientais, para que sejam criados planos
conjuntos de contingência para eventos climáticos extremos; as concessionárias de serviços
para que haja um alinhamento dos fluxos de saneamento, energia solar
compartilhada e descarte adequado de resíduos; e, a agenda ESG local com a integração de
diretrizes sustentáveis do guia de urbanismo social
para produzir uma pegada ecológica
urbana.
Nesse sentido, a Defesa
Civil pode estabelecer um plano de contingência, criando canais diretos para
alertas de tempestades, ressacas, enchentes ou vendavais. Pode promover o treinamento
interno, capacitando a equipe de funcionários do condomínio junto ao órgão para
agir em evacuações urbanas.
As concessionárias de água e
energia podem realizar a gestão de escassez, alinhando os protocolos para
períodos de racionamento severos ou apagões gerados por ondas de calor. Fortalecendo
a infraestrutura verde ao buscar parcerias para projetos de captação de água da
chuva e reuso que aliviem a rede pública.
As secretarias de meio
ambiente e urbanismo podem favorecer a logística reversa ao integrar a coleta
seletiva do condomínio às cooperativas oficiais da prefeitura para reduzir a
pegada de carbono. Em relação ao microclima local, podem estimular a busca por
incentivos fiscais, tais como o IPTU verde, para que as microssociedades
condominiais plantem árvores nativas ou instalem telhados verdes para combater
as ilhas de calor 3.
Mas, tudo isso se torna ineficaz se não houver uma adesão coletiva de
todas as pessoas que vivem e circulam nas microssociedades condominiais. De
modo que o papel do (a) gestor (a) condominial é fundamental para o alcance das
metas estabelecidas.
Ele (a) deve, então, criar campanhas simples sobre as
práticas que pretende implementar no condomínio, tais como reciclagem,
economia de água, melhorias sustentáveis nas áreas comuns, usando para tal os canais institucionais de comunicação
4 para motivar a participação de todos.
Lembre-se de que o papel do (a) gestor condominial (a) na era do
Antropoceno significa, então, deixar de ser um mero administrador de
manutenções e conflitos para se tornar um agente de sustentabilidade e
resiliência local.
Como escreveu Ailton Krenak, líder indígena, ambientalista e primeiro
escritor indígena a ocupar uma cadeira na Academia Brasileira de Letras (ABL), “O
futuro é aqui e agora, pode não haver o ano que vem”.
1 A
análise atuarial (ou avaliação atuarial) é um estudo técnico detalhado que
utiliza matemática, estatística e economia para mensurar riscos, garantir a
sustentabilidade financeira e calcular os recursos necessários para a cobertura
de benefícios futuros, especialmente em regimes de previdência e seguros.
2 O
plano diretor é previsto nacionalmente pela Constituição Federal de 1988 e
regulamentado pela Lei Federal nº 10.257/2001 (Estatuto da Cidade). De modo que
cada município aprova o seu próprio plano por meio de uma lei municipal
específica.
3 Trata-se
de uma ocorrência climática urbana caracterizada pelo aumento significativo da
temperatura nas áreas centrais e densamente urbanizadas de uma cidade em
comparação com as regiões periféricas ou rurais vizinhas. Essa variação de
temperatura dentro do mesmo município pode oscilar de 2°C a 10°C. Principais
causas: baixo albedo (quando uma superfície absorve mais luz solar do que
reflete, retendo energia na forma de calor), ausência de vegetação, impermeabilização
do solo, bloqueio dos ventos e poluição
atmosférica. As consequências para as cidades são o aumento no consumo de
energia, problemas de saúde pública e alterações no regime de chuvas.
