Verticalização urbana. Microssociedades condominiais. Já alertava Victor Hugo, escritor francês, “As palavras têm a leveza do vento e a força da tempestade".
Por
Alessandra Leles Rocha
Observando com atenção o
processo de disseminação da verticalização urbana, não é difícil imaginar que
essas novas configurações sociodemográficas, de certa forma, se assemelham a
uma Babel.
Assim como o mito bíblico da
Torre de Babel
1 que reunia povos de diferentes origens em uma
única grande construção, os edifícios residenciais e corporativos contemporâneos
confinam centenas de pessoas diversas e plurais em poucos metros quadrados.
De modo que se estabelece uma
hiperconcentração demográfica que, apesar da proximidade física, não se traduz
em proximidade social, muitas vezes, gerando o oposto. Haja vista de que na
Babel vertical das metrópoles contemporâneas, vizinhos de parede não se
conhecem ou não se falam.
Também há indivíduos que
compartilham o mesmo edifício ou bloco edilício vivendo em universos
socioculturais totalmente distantes. Fazendo dos elevadores e/ou corredores verdadeiros
espaços de silêncio e pressa, evidenciando a falta de diálogo e de senso de
comunidade.
De modo que essa segregação socioespacial
vertical se manifesta, por exemplo, na hierarquização física dentro
dos próprios edifícios urbanos. Cria-se, então, uma divisão de acessos com
elevadores de serviço versus elevadores sociais; a existência de coberturas e
andares altos destinados às classes de maior poder aquisitivo, enquanto
subsolos e áreas de manutenção abrigam os funcionários; e/ou, a dinâmica de
fortalezas em condomínios de torres, que funciona como microssociedades
autossuficientes, reduzindo a necessidade de interação com o resto do coletivo
condominial.
Nesse sentido, a separação
física e estrutural promovida pelos edifícios de alta renda e condomínios
verticais isola seus (as) moradores (as) do tecido urbano público, o que
atrofia a capacidade de diálogo, a troca de experiências e a comunicação entre
diferentes classes sociais, gerando bolhas comunicativas hiperreguladas.
Sim, há uma relação entre a segregação socioespacial vertical e a
segregação dialógica e comunicativa nas microssociedades condominiais,
refletindo como a arquitetura das grandes cidades molda, e muitas vezes limita,
as interações humanas.
Começando pelo fato de que esses
espaços geográficos funcionam como uma cápsula autossuficiente, com academias,
piscinas, espaços de trabalho e mercados internos, reduzindo a necessidade de
uso do espaço público da rua.
De modo que para completar
esse cenário, a arquitetura
do controle com seus muros altos, guaritas, biometria, cria uma
fronteira nítida entre o dentro,
considerado homogêneo, seguro, de alta renda, e o fora, representado pelo heterogêneo e
visto como perigoso.
Então, quando o espaço de
circulação é restrito ao ambiente privado e controlado, os fluxos comunicativos
sofrem alterações profundas. O que faz com que o diálogo passe a ocorrer apenas
entre iguais, ou seja, moradores do mesmo estrato social, gerando uma
homogeneização do discurso.
Por isso, a convivência com
seus pares socioeconômicos nas áreas comuns promove uma constante reafirmação das
bolhas discursivas, criando um consenso artificial sobre certos assuntos que se
mostra cego contra visões divergentes.
O que permite pensar que a
segregação vertical atua como uma infraestrutura material que possibilita perpetuar
a segregação comunicativa. Ao fraturar o espaço, fratura-se também a capacidade de diálogo, de
escuta, transformando as microssociedades condominiais em laboratórios de uma
cidadania incompleta e deficitária em termos democráticos.
Daí esse modelo ditar quem
tem direito à fala e sob quais condições, gerando uma segregação dialógica e
comunicativa. Aqueles que trabalham no condomínio, por exemplo, tais como porteiros
(as), faxineiros (as), seguranças, apesar de circularem nesse espaço, tem a sua
presença frequentemente marcada por uma invisibilidade social.
A comunicação com eles é
instrumental e hierárquica, caracterizando uma segregação dialógica crônica
dentro da própria microssociedade.
De modo que na esteira dessa
realidade, a comunicação interna perde a espontaneidade, demandando cada vez
mais ser mediada por circulares, aplicativos de convivência, advertências e
assembleias.
O que aponta para uma
necessidade fundamental de que ao menos a comunicação institucional condominial
consiga ser estabelecida de forma transparente, objetiva e sem ambiguidades ou enviesamentos
2.
Especialmente, porque o Direito Condominial estabelece regras claras quanto
os caminhos da comunicação dentro das microssociedades condominiais, tendo em
vista de que a falta de padronização gera caos jurídicos, conflitos
interpessoais e prejuízos financeiros.
Certas comunicações,
como convocações de assembleias, editais e aplicação de multas, exigem
formalidade como, por exemplo, carta protocolada ou e-mail com confirmação. Se
o caminho oficial não for seguido, os atos podem ser anulados na Justiça. Inclusive,
registros escritos oficiais servem como histórico de gestão e prova jurídica em
caso de processos judiciais entre condôminos ou contra terceiros.
Além disso, em uma
microssociedade que arrecada e gasta dinheiro coletivo, a comunicação clara
sobre a previsão orçamentária e a prestação de contas evita suspeitas de fraude
e garante o direito de informação a todos.
Diante do breve exposto, então, deixo o seguinte conselho: “Vigie
seus pensamentos, eles tornam-se palavras. Vigie suas palavras, elas tornam-se
ações. Vigie suas ações, elas tornam-se hábitos. Vigie seus hábitos, eles
formam seu caráter. Vigie seu caráter, ele se torna seu destino” (Frank
Outlaw 3).
Afinal de contas, em um
ecossistema fechado e hiperconectado, como são as microssociedades condominiais,
o ciclo que vai do campo mental individual ao destino coletivo é acelerado,
impactando diretamente a convivência, a segurança jurídica e a valorização
patrimonial.
Por isso, a microssociedade condominial prova que a convivência e a coexistência
não dependem apenas de leis e multas, mas do policiamento invisível que cada
morador (a) faz de sua própria conduta, desde o primeiro pensamento dentro de
sua unidade até o convívio nas áreas comuns.
A verdadeira paz residencial nasce da consciência de que o direito
individual termina onde começa o do (a) vizinho (a), um exercício que exige
maturidade emocional desde o ambiente privado do lar até o uso das áreas comuns.
E o papel do (a) síndico (a) é ser o grande maestro dessa pluralidade e
diversidade sociodemográfica.
1 A Torre de Babel é um mito bíblico (Gênesis 11:1-9) que
serve para explicar a origem da diversidade de línguas e a dispersão dos povos
pela Terra.
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https://verticalizacaoemicrossociedades.blogspot.com/2026/07/verticalizacao-urbana-microssociedades_01294932711.html
https://verticalizacaoemicrossociedades.blogspot.com/2026/09/verticalizacoes-urbanas.html
3 Trecho de um texto publicado em um jornal do Texas (EUA) sob o título "What They’re Saying" em Maio de 1977.
